Eram dias de sol.Eu morava na Cidade Maravilhosa, devia ter uns 5 anos. A memória me refresca esses dias, como tantos outros. Estava na pré escola, e minha professora era a tia Luciene. Baixa, morena, dos cabelos negros compridos. Antes de sair de casa, tomava banho, e não podia colocar o uniforme, para não sujá-lo com o frango assado do almoço que aconteceria dali cinco minutos. Após a refeição, eu me vestia e passava um certo perfume verde, de tampa da mesma cor.
Eu não me lembro exatamente quem me levava sempre para a escola. Mas lembro perfeitamente desses dias de sol, que uma senhora me acompanhava até esse lugar onde existia uma caixinha de madeira com furos onde colocavamos o giz de cera.
Uma senhora dos cabelos brancos...tão brancos como a cor da neve. Devia ter seus 80 anos na época, ou quase nessa idade, mas mostrava vitalidade, rapidez em seus atos, no seu andar. Essa senhora, minha bisavó, chamava-se Maria.
Ela com seu vestido florido, levava em um dos bolsos fundos, uma pequena faca.
E quando chegava em uma certa rua do bairro de Olaria - rua esta que tinha casas e mais casas com rosas e mais rosas - pedia silêncio para mim, e delicadamente sem ninguém perceber ela pegava a tal da faquinha e cortava uma rosa do jardim de uma das casas. Era um ato de mestre, cada dia uma residência fornecia uma flor, assim ninguém perceberia a falta. As cores eram diversas, mas eu me lembro constantemente das de cor vermelha, talvez pela intensidade que é aplicada a essa tonalidade.
Ela roubava as rosas dos moradores e eu era seu cúmplice.
No caminho até a escola, ela com a rosa na mão, ia tirando com a mesma faquinha os espinhos, e depois me dava, para em seguida eu presentear a minha professora Luciene. Todos os dias em que minha bisavó Maria me levava para a escola esse ato acontecia.
E eu nunca critiquei este ato de roubo, por achar aquilo uma aventura incomensurável. Cada ida para a escola era suspense e medo de alguém nos apanhar.
Eu roubava rosas com a minha bisavó quando eu era criança.
Eu queria ter mais uma chance de dizer para a Dna Maria que eu me lembro desses dias de sol.
P.S. - Eu estava lendo um dos contos de "Felicidade Clandestina", intitulado "Cem anos de Perdão" e em momento epifânico entendi Clarice Lispector, afinal eu roubava rosas com a minha bisavó e morava em Olaria, local onde a protagonista de A Hora da Estrela morre, atropelada por um carro.
3 comments:
acredito que escrever esse lindo texto tenha sido o mesmo que dizer a ela que lembra dos seus dias de sol qdo menino, yanes.
vc é lindo.
um beijo!
Emocionante, realmente sem palavras...
Como te disse tem coisas que
ocorrem na infância que faz
um sentido muito grande no presente.
Estes dias de sol vão ficar para a
eternidade.
Te Amo.
beijão
Nossa adorei o texto
vc escreve bem!
Quem dera eu tivesse roubado na infancia :( hehehe brincadeira
Post a Comment