Friday, April 11, 2008

As loiras e o Picasso


Por Duilio Ferronato

Para a Revista da Folha de São Paulo


Nos idos da era da inflação, era difícil explicar para um estrangeiro como funcionava nossa economia. Eles nunca entendiam como os preços podiam mudar todos os dias. Dava até certo constrangimento falar nesse assunto.


Agora ficou complicado explicar para um estrangeiro ou para qualquer pessoa sensata que o presidente do MASP é o mesmo arquiteto que projetou o templo da Daslu. Não é tarefa fácil. Começar por onde?


Qualquer um teria dificuldade de entender como uma pessoa que ainda acredita na arquitetura neoclássica pode cuidar de um museu de arte porque são coisas que não combinam. Mas, por incrível que pareça, isso aconteceu. E com resultado ruim para os dois lados.


Primeiro, dá até vergonha de passar na porta do prédio do templo, que ficou a coisa mais cafona e medonha desta cidade. Se um dia eu encontrar o prefeito, vou sugerir que ele libere os outdoors só na frente do templo. Assim, pelo menos, dá para cobrir aquela monstruosidade. Do mesmo jeito que faziam antigamente com as favelas.


Mas as loiras, que são pastoras naquele templo, não são fáceis de serem vencidas. Elas têm uma ligação forte com uns santos. Toda vez que são entrevistadas, dizem que um tal santo sempre ajudou e que a mãe e a avó já eram devotas desse santo ou daquela santa, sei lá. Deve ser um santo que gostava de templo grego.


Elas, além de muito devotas, acreditam no poder das grifes. Nunca se vê uma delas sem uma marca gritando no peito, na bolsa ou nos óculos (ah, sim, todas usam uns óculos enormes, que fazem parte do uniforme). Elas também acreditam que só as loiras alisadas são felizes. Então, fica difícil explicar para elas que essa história de coluna grega é cafona e sem sentido numa cidade como a nossa.


Até aí, eu entendo. As clientes delas devem morar em prédios neoclássicos e são muito endinheiradas. Portanto contruíram um templo para loiras ricas que gostam de colunas gregas.


Mas outra coisa é o presidente do museu ter desenhado aquelas colunas. Ai, meu Deus do céu! Como é possível isso ter partido da mesma pessoa que dirige (mal) o museu? Pensando bem... É bem possível, já que o MASP deixou de ser um museu respeitado para ser um salão de eventos.


Outro dia, tenho que confessar, fui a um evento lá. Meu amigo Celso tentou me convencer a jogar cheesecake na cara do arquiteto, mas eu não tive coragem. Quando ele veio sorridente na minha direção, tive de me esconder para não vomitar.


Não deveria ter ido, mas também nunca mais pisarei naquele museu enquanto o devoto das loiras estiver na presidência.


A boa notícia é que o domínio do arquiteto sobre o museu está em perigo e ele poderá ser substituído. Só que o forte candidato à sucessão é um publicitário que loteou a capital baiana para seus clientes endinheirados e é casado com uma das loiras do templo.


Então, parece que vai continuar tudo na mesma... Deve ter sido por isso que o Picasso fugiu e se escondeu na zona leste.


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