Friday, September 12, 2008

"Se podes olhar, vê. Se podes ver, repara."

"Vamos lá, tornou a dizer o velho da venda preta, vamos ao que estava decidido, ou é isso, ou ficamos condenados a uma morte lenta, Alguns morrerão mais depressa se formos, disse o primeiro cego, Quem vai morrer, está já morto e não o sabe, Que temos de morrer, sabemo-lo desde que nascemos, Por isso, de uma certa maneira, é como se já tivéssemos nascido mortos."


(...)


"Pela porta do átrio que dá para a cerca exterior entra uma difusa claridade que cresce pouco a pouco, os corpos que estão no chão, mortos dois deles, os outros vivos ainda, vão lentamente ganhando volume, desenho, traços, feições, todo o peso de um horror sem nome, então a mulher do médico compreendeu que não tinha qualquer sentido, se o havia tido alguma vez, continuar com o fingimento de ser cega, está visto que aqui já ninguém se pode salvar, a cegueira também é isto, viver num mundo onde se tenha acabado a esperança."


(...)


"Também os faltam para ver este quadro, uma mulher carregada com sacos de plástico, andando por uma rua alagada, entre lixo apodrecido e excrementos humanos e de animais, automóveis e camiões largados de qualquer maneira e atravancando a via pública, alguns com as rodas já cercadas de erva, e os cegos, os cegos, de boca aberta, abrindo também os olhos para o céu branco, parece impossível como pode chover de um céu assim. A mulher do médico vai lendo os letreiros das ruas, lembra-se de uns, de outros não, e chega um momento em que compreende que se desorientou e perdeu. Não há dúvida, está perdida. Deu uma volta, deu outra, já não reconhece nem as ruas nem os nomes delas, então, desesperada, deixo-se cair no chão sujíssimo, empapado de lama negra, e, vazia de forças, de todas as forças, desatou a chorar. Os cães rodearam-na, farejaram os sacos, mas sem convicção, como se já lhes tivesse passado a hora de comer, um deles lambe-lhe a cara, talvez desde pequeno tenha sido habituado a enxugar prantos. A mulher toca-lhe na cabeça, passa-lhe a mão pelo lombo encharcado, e o resto das lágrimas chora-as abraçada a ele."

SARAMAGO, José.
Ensaio sobre a Cegueira

Saturday, August 23, 2008

No poema “Isto” de Fernando Pessoa o eu- lírico ao final de sua jornada poética anuncia: “Sentir? Sinta quem lê.”

Portanto, sinta!

ALÉM DA IMAGINAÇÃO

“Tem gente passando fome.
E não é a fome que você imagina entre uma refeição e outra.
Tem gente sentindo frio.
E não é o frio que você imagina entre o chuveiro e a toalha.
Tem gente muito doente.
E não é a doença que você imagina entre a receita e a aspirina.
Tem gente sem esperança.
Mas não é o desalento que você imagina entre o pesadelo e o despertar.
Tem gente pelos cantos.
E não são os cantos que você imagina entre o passeio e a casa.
Tem gente sem dinheiro.
E não é a falta que você imagina entre o presente e a mesada.
Tem gente pedindo ajuda.
E não é aquela que você imagina entre a escola e a novela.
Tem gente que existe e parece imaginação.”

Ulisses Tavares

Monday, August 11, 2008

Subversiva

A poesia
quando chega
não respeita nada.
Nem pai nem mãe.
Quando ela chega
de qualquer de seus abismos
desconhece o Estado e a Sociedade Civil
infringe o Código de Águas
relincha
como puta
nova
em frente ao Palácio da Alvorada.

E só depois reconsidera: beija
nos olhos os que ganham mal
embala no colo
os que têm sede de felicidade
e de justiça

E promete incendiar o país

GULLAR, Ferreira

Wednesday, August 06, 2008

Esta é uma história de fatos,
Você vê apenas o que você quer ver.
Num deserto você pode pensar o quanto você custa à esta sociedade...
Pensar em ter coração quando tudo se mostra contra estas constatações.

Você nunca pode estar a parte do que ocorre a sua volta,
Uma cobra, um leão, um escorpião...

Você é!

Você mantém e observa!

Você não tem ponto para seguir e se você se perder seu coração estará perdido para sempre.
Você é um pássaro e necessita voar, mas cuidado, vôos podem causar morte.

Se você conseguir detectar corações pulsantes, sangue escorrendo, mostre para mim.

Você está, você é, você mantém.

Como a vida pode ser o que você quer?

Não chore por ti, estás perdido!
Coração nenhum se mantém por mais de 107 anos!
Mas um raio de luz pode estar virado para você...

Wednesday, July 23, 2008

Quem já passou por essa vida e não viveu.
Pode ser mais, mas sabe menos do que eu.
Porque a vida só se dá pra quem se deu.
Pra quem amou, pra quem chorou, pra quem sofreu.
Quem nunca curtiu uma paixão, nunca vai ter nada não.
('Como dizia o poeta' - Vinícius e Toquinho)


Eu tenho o costume de fazer algumas brincadeiras - irônicas ou não - sobre as pessoas que estão namorando ou apenas 'apaixonadas'. Eu posso ser interpretado de erradas maneiras com essas brincadeiras, mas depois de um tempo começamos a perceber que aquilo que falamos não pode ser levado a sério. Comigo pelo menos algumas coisas em algumas ocasiões não podem ser levadas à ferro e fogo.

Costumo dizer que 'odeio gente feliz' e 'odeio gente apaixonada', e mais, eu ainda me incluo nessas duas frases. Estar apaixonado é enjoativo e nauseante.
Imagina: ficar todo chamegos, pensando o dia todo na pessoa, morrendo de sofrimento, contando minutos e até segundos para ver, tocar aquele ser que tanto tinhamos almejado horas atrás. Quer coisa mais complicada que esta?

Mas nos entregamos a situações como estas por sermos humanos, somos alvo de carência e falta de amor, então temos que nos resignar e não lembrar das dores passadas, dos momentos infelizes de finais de outros relacionamentos. E esquecemos destes momentos realmente. Cada vez que nasce uma nova paixão mergulhamos de cabeça, descemos fundo em um nado sem volta. Paixão é afogamento. A sensação de retorno a superfície, de conforto e alívio vem depois com o amadurecimento do amor ou então com o término da relação. Não tem outra alternativa, fica tão sufocante aquela intimidade próxima, aquele ardor de fome, de beijos, de corpo, de sexo que ou vai ou fica pelo caminho.

Ao mesmo tempo que é tão sufocante, a paixão é tão sutil e leve como maresia. Entre os dois indivíduos participantes do caso apaixonante ao mesmo tempo que ocorre essa ferocidade pelo outro existe a sensibilidade, o carinho, o encontro dos dedos. Paixão é contrária as regras estabelecidas pela sociedade. É pura e perigosa.

Paixão é mãos dadas em uma praça na hora do por do sol, vento no rosto, cabelos remexidos, intesidade, vontade, e insaciabilidade.

Paixão é insuportável.

Saturday, July 19, 2008

Os Amores Possíveis...

Imagine um dia daqueles que pode-se dizer perfeito para dormir debaixo das cobertas com o amor da sua vida comendo chocolate, pipoca e vendo um bom filme romântico.

Ou então passear pela cidade de São Paulo que em alguns dias é calma e tranqüila: poderia pegar um bom cinema, um teatro ou apenas sair para jantar fora, dar uma volta.
Ainda mais aqui: uma infinidade de coisas acontecendo ao mesmo tempo.

Aí, você chega e me diz: sou solteiro! Meu Deus! Acabou-se.

Solteiro em São Paulo? SIM! Acontece...somos muitos, sempre ocupados, correndo na Av Paulista, no Metrô, no Centro ou para pegar um ônibus lotado e acabamos por nos desencontrar, no caso você e sua alma gêmea.

É uma luta eterna de prazeres, andares, vias, procuras... Estamos nos procurando, mas ainda não nos esbarramos.

Será mesmo?

A maior capital da América do Sul, a mais caótica de todas e perante tanta gente, ninguém te satisfaz?
E ainda, quando começa a satisfazer, a pessoa parece que não está satisfeita?

O problema é seu?
Pode até ser.

Mas nesta cidade tumultuada que tem garoa a rodo, buzinas, carros e pedestres disputando espaço no escuro 'anoitecido', em algum lugar deste território um dos quase 20 milhões de habitantes precisa aprender os seus defeitos.

E amá-los como se fossem seus...

...e aí eu comprarei chocolates e pipocas!

d'onde estão os amores possíveis?

Sunday, June 01, 2008

Pontos Cotidianos

Frisson

Ontem no trabalho chegaram dois cariocas.
Percebi logo pelo sotaque, e eles também.

Falei que era de Olaria e eles de Campo Grande.

Adoro encontrar Cariocas perdidos por esta terra de meu deus.

Friday, May 30, 2008

Uma Quinta. Uma história.

correria correria
pega o ônibus
jabaquara
ana rosa
esfiha
flerte

caminha caminha
blen blong alto
campo amigo
beijo aperto
riso toque
abraço

dirige dirige
buzinas
stress
lugar
ares
ah!

augustear augustear
esquina bebida bar
assunto conversa
barulho pessoas
ex pedintes
ah!

thelma thelma
diversão ali
compra kid
chão bom
frio aqui
oh!

louise louise
acabou já
agora ir
cada se
casa de
dormir

oh l'amour!

Saturday, May 24, 2008

São Paulo

Adoro esta cidade
São Paulo do meu coração
Aqui nenhuma tradição
Nenhum preconceito
Antigo ou moderno

Só contam este apetite furioso esta confiança absoluta este otimismo esta audácia este trabalho este labor esta especulação que fazem construir dez casas por hora de todos os estilos ridículos grotescos belos grandes pequenos norte sul egípcio ianque cubista

Sem outra preocupação que a de seguir as estatísticas prever o futuro o conforto a utilidade a mais-valia e atrair uma grande imigração

Todos os países
Todos os povos
Gosto disso
As duas velhas casas portuguesas que sobram são faianças azuis

Blaise CENDRARS

Sunday, May 18, 2008

Avenida III

É complicado quando não temos o que expressar, o que pensar e mais ainda o que sentir. Quando não temos para onde ir, inclusive em dias chuvosos que devemos sair de casa e nos encontrar, porém queriamos passar o turno inteiro deitado morrendo mais um pouco. Mas a cidade chama, a sociedade clama por mais gente transitando de um lado para o outro. Enquanto alguns levam torrenciais gotas no rosto, outros em sua depressiva viagem de carro pela avenida olham para o nada, para a lua, para as nuvens em suas paragens. A única cor em sua retina focal é o vermelho do semáforo que insiste em estar ali e ir e vir cada vez mais ligeiro.

De repente o barulho...

Baldes de cor azul invadindo a avenida. Como uma onda de tinta azulada percorrendo as vias asfaltadas e metropolitanas de nossas artérias mecânicas. Azul Almodóvar. O céu antes escuro, agora fica claro, e tudo aquilo que era depressivo e rotineiro passa por um sorriso branco e sincero. O andar dos pedestres é de procura em meio ao lamaçal unicolor.
Ninguém entende o motivo, mas todos começam a se comunicar por outra língua. Mas por irônia de percurso todos se entendem.

E por se entenderem voltamos ao eterno ciclo deprimente de nossas vidas. Os pedestres andam sem nada mais procurar, apenas preocupados com seu caminhar e seu futuro. Os motoristas voltam os olhos para o céu implorando a chegada ao destino e vislumbram o semáforo vermelho.

A linguagem em rotina também é destruídora e devastadora como a onda azul que acometeu a avenida por alguns instantes.

Tuesday, April 29, 2008

A Virada Cultural


É... só agora consegui me recuperar plenamente do cansaço que me acometeu neste fim de semana e por isso estou aqui para contar um pouco sobre os acontecimentos últimos.
Tudo começou na sexta-feira, dia movimentado, trabalho no IEB, aula do Pasta até às 23h30. Já na aula, lá pelas 22h20 se ouvia o borbulhar de vozes no gramado da faculdade e um pouco depois a música dos anos 50, 60...enfim, SOM!
Acabou a aula e fui encontrar os amigos na festa "Do Elvis ao Créu" que estava organizada, com "boa" música, vazia, e com cerveja cara. A questão da cerveja eu abstraio porque eu odeio esta bebida amarga!
Enfim, fiquei na festa até às 5h da madrugada, dançando e me divertindo com o pessoal.
Cheguei em casa 5h30 e cai na cama conseguindo dormir até às 9h.

...

10h já estava trabalhando no IEB, com documento, bilhete único, chaves de casa, algum dinheiro, e óculos escuros para ir direto para a Virada Cultural.
Trabalhei até às 16h e de lá peguei um ônibus direto pro Centro.

Mas no meio do caminho, aproximadamente na Av. Paulista, percebi que estava com fome.
Ok. Tenho Bilhete Único, pensei.
A coisa mais perto/barata era o Habib's da Alameda Santos. Saindo do restaurante peguei mais um ônibus e fui parar direto no famoso cruzamento da Ipiranga com a São João. Lá estava montado o palco principal do evento. Antes de mais nada digo: agora concordo com a frase que está virando símbolo da cidade. São Paulo é tudo de bom! Segue portanto todo meu percurso pela Virada Cultural 2008.


18h - Show: Cesária Évora no Palco São João: Cantora cabo verdiana FANTÁSTICA! Ritmo quente e dançante. No meio do show percebi que existem vários cabo verdianos no Brasil!
Experiência muito, muito boa este show.

21h - Show: Gal Costa no Palco São João: Não precisa de apresentações, o show desta mulher foi fantástico, músicas como London, London; Sampa e Trem das onze estiveram presentes. O segundo melhor show da Virada com certeza!

23h - Show: Roberto Luna no Palco do Largo do Arouche: Eu estava lá apenas pra descansar no gramado. Show do estilo brega e dançante.

24h - Show: Zé Ramalho no Palco São João: Outro que não precisa de apresentações. Show intenso, político, social, PERFEITO.

01h - Show: Antonio Carlos e Jocafi no Palco do Largo do Arouche: Outro show que ouvi descansando no gramado.

03h - Show: Mutantes no Palco São João: Show INIMAGINÁVEL e FANTÁSTICO. O terceiro melhor da Virada 2008. Intenso, estranho, político e artístico!

Das 05h30 às 09h - Andei pelo Centro, joguei Truco, tomei café da manhã.

09h - Show: Canja Rock Blues no Palco Canja: Um evento com mais de 100 músicos se revezando durante às 24h de evento.

10h - Cinema: Filme - Machuca: Serviu para dormir às duas horas de filme! hahahaha

12h - Almoço com direito ao famoso Bauru do Ponto Chic

Andando pelo Largo em frente ao Ponto Chic rolou uma capoeira.
Antes de chegar até o Palco da Dança também passei pelo evento 24h de Piano na Praça.

13h - Ballet no Palco da Dança: Ballet Stagium - Ano passado assisti à apresentação deste grupo, dançando músicas do Chico Buarque. Não deu para perder esse ano. Dançaram músicas de raiz, como exemplo: Asa Branca. FANTÁSTICO!

14h - Show: Arnaldo Antunes no Palco Rock da Praça da República: Show pra descansar e pensar, com MUITO sol na cabeça. Muito bom também!

15h - Show: Orquestra Imperial no Palco São João: Show de uma banda que não conhecia. Estava tão cansado que ainda não emiti opinião sobre a apresentação.

18h - Show: Jorge Ben Jor - Apresentação animadíssima. Intensa. Suada. O melhor show da Virada com toda certeza.
"Moro num país tropical, abençoado por Deus e bonito por naturezaaaaaaa"
INESQUECÍVEL.

Virei com a Carolina Zanata, amiga da Letras, de Virada mesmo foram 27 horas!
Foi realmente muito bom.

Agora quando eu ouvir a seguinte música com o seguinte verso tudo será diferente:

"Alguma coisa acontece no meu coração...que só quando cruza a Ipiranga e a Avenida São João..."

Agora o coração bate mais forte ao ouvir falar nestas ruas...

Friday, April 18, 2008

Como conseguir 30 créditos?

Em dezembro pedir a júpiter que atenda suas solicitações mais tenebrosas e impossíveis...
Provavelmente você não será atendido,
Então tente novamente em um período probatório!

Friday, April 11, 2008

As loiras e o Picasso


Por Duilio Ferronato

Para a Revista da Folha de São Paulo


Nos idos da era da inflação, era difícil explicar para um estrangeiro como funcionava nossa economia. Eles nunca entendiam como os preços podiam mudar todos os dias. Dava até certo constrangimento falar nesse assunto.


Agora ficou complicado explicar para um estrangeiro ou para qualquer pessoa sensata que o presidente do MASP é o mesmo arquiteto que projetou o templo da Daslu. Não é tarefa fácil. Começar por onde?


Qualquer um teria dificuldade de entender como uma pessoa que ainda acredita na arquitetura neoclássica pode cuidar de um museu de arte porque são coisas que não combinam. Mas, por incrível que pareça, isso aconteceu. E com resultado ruim para os dois lados.


Primeiro, dá até vergonha de passar na porta do prédio do templo, que ficou a coisa mais cafona e medonha desta cidade. Se um dia eu encontrar o prefeito, vou sugerir que ele libere os outdoors só na frente do templo. Assim, pelo menos, dá para cobrir aquela monstruosidade. Do mesmo jeito que faziam antigamente com as favelas.


Mas as loiras, que são pastoras naquele templo, não são fáceis de serem vencidas. Elas têm uma ligação forte com uns santos. Toda vez que são entrevistadas, dizem que um tal santo sempre ajudou e que a mãe e a avó já eram devotas desse santo ou daquela santa, sei lá. Deve ser um santo que gostava de templo grego.


Elas, além de muito devotas, acreditam no poder das grifes. Nunca se vê uma delas sem uma marca gritando no peito, na bolsa ou nos óculos (ah, sim, todas usam uns óculos enormes, que fazem parte do uniforme). Elas também acreditam que só as loiras alisadas são felizes. Então, fica difícil explicar para elas que essa história de coluna grega é cafona e sem sentido numa cidade como a nossa.


Até aí, eu entendo. As clientes delas devem morar em prédios neoclássicos e são muito endinheiradas. Portanto contruíram um templo para loiras ricas que gostam de colunas gregas.


Mas outra coisa é o presidente do museu ter desenhado aquelas colunas. Ai, meu Deus do céu! Como é possível isso ter partido da mesma pessoa que dirige (mal) o museu? Pensando bem... É bem possível, já que o MASP deixou de ser um museu respeitado para ser um salão de eventos.


Outro dia, tenho que confessar, fui a um evento lá. Meu amigo Celso tentou me convencer a jogar cheesecake na cara do arquiteto, mas eu não tive coragem. Quando ele veio sorridente na minha direção, tive de me esconder para não vomitar.


Não deveria ter ido, mas também nunca mais pisarei naquele museu enquanto o devoto das loiras estiver na presidência.


A boa notícia é que o domínio do arquiteto sobre o museu está em perigo e ele poderá ser substituído. Só que o forte candidato à sucessão é um publicitário que loteou a capital baiana para seus clientes endinheirados e é casado com uma das loiras do templo.


Então, parece que vai continuar tudo na mesma... Deve ter sido por isso que o Picasso fugiu e se escondeu na zona leste.


Sunday, April 06, 2008

Santa Chuva!


É interessante como às vezes esquecemos de nossos ideias, de nossa identidade, de nossa missão.

Ok. É ridículo falar assim, mas parece que eu perdi pelas esquinas da memória os problemas que esse país/mundo enfrenta.

Me tranquei dentro do meu mundo universitário e pronto!

A minha vida nos últimos tempos está direcionada para conseguir concluir meus trinta créditos previstos para este semestre e trabalhar no Instituto de Estudos Brasileiros dentro da USP.

Sei que é digna toda essa história, sei que é importante para minha formação, acredito também que aprendo demais no IEB e na Letras, enfim, com todos: professores, amigos, familiares.


Mas percebi hoje que não é só isso que pode mover minha vida.


Ano passado ainda podia dizer que lembrava das mazelas do país pois trabalhava numa ONG que adentrava as periferias da cidade, fazia me sentir útil sabe? Ver aquilo tudo e estar ali, junto, trabalhando, produzindo. E não é só discurso de "lembrar dos problemas dos pobres", é muito mais que isso, é aquela história de me fazer mal, corroído, cansado, sem esperança.

Nesse meio tempo, disse para mim mesmo, que não mais me sentiria mal, saberia o que acontecia, tentaria ajudar, mudar, tranformar, mas não me machucaria.


O que eu fiz?

Nada.


Nessa idéia de não me machucar, esqueci que ainda os mesmo problemas estavam ali fora ao alcance da mão e que quase ninguém fazia nada. Eu havia saído de campo, desistido.


Aí pensei: Ah mas a esperança ainda 'taí'!

E eu mesmo respondi hoje: Tá é o caralho!

Esse tempo todo estava me enganando achando que tudo ia mudar num estalar de dedos, que os políticos se conscientizaram e tudo ia melhorar.


balela!


Eis que hoje, resolvi sem mais nem menos, ir ao cinema a tarde. Fui sozinho mesmo, às vezes acontece. Fui assistir: "Maré: nossa história de amor". Trata-se de uma livre interpretação de Romeu e Julieta. Tirando umas 3 ou 4 cenas o filme é bem destruído com péssimos erros de edição e direção, mas o importante na discussão não são essas questões e sim o que o final do filme causou em mim.

Tudo bem, que o filme é romantizado, questões abordadas de polícia, traficante e gente como a gente querendo sobreviver, porém como um clic metálico, minha mente saiu daquele cinema e me fez lembrar em tudo que eu pensava antes desta estagnação já mencionada anteriormente. E saí do cinema mal e deprimido com vontade de sentar na guia da Consolação (a Rua aqui de SP) e chorar. Fazer com que as lágrimas se juntassem com as da chuva que estava caindo na cidade no momento.


Como pude esquecer daquilo tudo?


É esse o papel do cinema?


Então qual o meu papel?


O final do filme é devastador, é intenso, é do tipo que suspende a platéia e a faz ficar estática até o fim quase sem respirar.


Por isso, o considero um filme regular, mas que fez abrir portas antes trancadas por mim e que agora mais do que nunca estão escancaradas. Escancaradas para o Brasil, que pode cuspir e brincar com minha cara.


Mas a questão é essa...

Voltei.

Saturday, March 08, 2008

Desabafo não literário...

ALFA, BETA, VOCÊ...

Cansei!
Cansei de ficar olhando os outros
De estar sempre disposto e ver olhares inofensivos quando algo deve mudar.

Cansei de ter que resolver minha vida
De ter que pensar sobre um mundo melhor.
Isto é utópico demais.

Cansei de ser complexado demais.
De tentar ajudar demais,
De não ser triste e colocar a felicidade em primeiro lugar.

Cansei de escrever poemas introspectivos, dos quais não produzem conseqüência e que não trazem o bem e sim lembranças.
Cansei de ver mortos de fome e não poder fazer nada
De ver exilados e não poder trazê-los de volta
De sentir a dor no olhar de quem sente dor e ser proibido de sentir dor.

Cansei de ver pessoas que querem continuar como estão,
Cansei de ver, de sentir, de ouvir, e principalmente de opinar.
Cansei de minhas desistências contínuas
De não perder a fé na humanidade
De estudar a história desta para transformá-la e não poder.

Cansei de ser o que sou,
De lutar por um ideal, mesmo tendo esquecido o que seja isso.
Cansei de encabeçar idéias e de fazer a diferença.
De ser o diferente, o que faz e produz.

Cansei de ouvir: “Pelo menos existe você”
Cansei de não ver os outros sendo o mesmo
De não ver os outros se movimentando.

Cansei de lutar contra a guerra,
Ela acontece e isto é fato
Será que ainda podemos mudar?

Cansei de ouvir de quem acaba de ler este poema que eu sou o futuro e de que não posso desistir.
Você realmente não sabe o que diz...
Cansei de você, que lê este mísero conjunto de palavras, nunca tentar mudar e esperar que os outros mudem.

Cansei de ler
Cansei de visualizar
Cansei de cuidar
Cansei de mim
Agora é com vocês queridos leitores,

Cansei do cansaço.

Saturday, February 02, 2008

29?!

Vocês já tiveram a curiosidade de pegar o calendário de 2008 e verificar quantos feriados prolongados nós temos pela frente?

Tudo bem, no Brasil JÁ temos muitos feriados. Mas poxa, nós gostamos vai!

No segundo semestre deste ano não temos NENHUM feriado decente. Teremos um ou dois na primeira parte do ano.

Qual o motivo?

FEVEREIRO TEM 29 DIAS!

estão vendo, até ano bissexto atrapalha a vida do brasileiro.

Malditos romanos...

Wednesday, January 30, 2008

Na Terra do Sol...

Maceió, Alagoas...

Terra da melhor tapioca do Brasil, terra de Djavan, Collor, e Renan Calheiros.

Um dos estados mais pobres do país tem contradições: de um lado a seca, casas de taipa, crianças pedintes; queimada para o corte de cana e a baixa expectativa de vida desses trabalhadores. Do outro lado, praias exuberantes que é o paraíso dos turistas, alta gastronomia, coqueiros, vento e comodidade.

É neste lugar que tem mágica por todos os lados que me encontro atualmente.
E mais, estou no nordeste brasileiro, em época de carnaval!

Quer coisa melhor?

Mas não se precipitem: Alagoas não tem aquele carnaval que vemos na TV. Aquilo lá é em Recife com o Galo da Madrugada ou em Salvador com os Trios Elétricos.
Por aqui é tudo mais calmo, só tem aqueles blocos de rua, antigos. Inclusive já participei de um deles, 'O Bloco do Prazer.." (Êta nomezinho sugestivo)
Foi divertido... tinha Comissão de Frente, Evolução, Fantasia, e até bateria! Existia uma cobra gigante, parecida com o Boi Bumbá, conhecem? Então ela é igual, entra o povo embaixo e sai por ai "evoluindo"....
Legal pular carnaval em ruas de paralelepípedos. Pensei que nunca faria isso por que não existisse mais. Engano meu. Existe e é o máximo!
Este blocos fazem parte de um evento que acontece no bairro do Jaraguá, local boêmio de Maceió, onde encontramos os barzinhos, as baladas...

Recomendo Maceió para todos e todas.
A praia daqui, é fantástica, todo dia com céu límpido, águas verdes, e a noite, aquele rastro da lua percorrendo um bom pedaço do mar...

Monday, January 14, 2008

Explicação II


Depois do meu momento de epifânia com o texto "Cem anos de Perdão" de Clarice Lispector, resolvi criar esse blog.
Bem, então, como qualquer ser humano que tem essa vontade fui até o site provedor deste recurso na internet, e lá pediam para que eu escolhesse um domínio. Pensei , pensei, e resolvi que seria Felicidade Clandestina, afinal este era o nome do livro que inspirou a vontade de criar e mostrar idéias para um número "x" de pessoas.
Pois bem, após escolher e digitar o nome, cliquei em "Verificar Disponibilidade":: computador em processo, e 'retornando' com a seguinte resposta: "Domínio sem disponibilidade, tente outro".
-Droga!
Já estava irritado.
Mas no mesmo segundo que a irritação veio... apareceu na minha mente a frase que mais gosto da Clarice:
"Porque há o direito ao grito.
Então eu grito.
Grito puro e sem pedir esmolas."
(A Hora da Estrela)
Ótimo! direitoaogrito, seria perfeito. Digitei. Computador processando. Resposta: "Domínio sem disponibilidade, tente outro."
Ah não! Exclamações começaram a sair pela boca:
- "Quem é o filho da puta que roubou a minha frase predileta?"
Fui lá.
Não podia deixar isso barato, precisava ver quem era o imbecil que havia escolhido o nome antes de mim.
Digitei.
direitoaogrito.blogspot.com
Entrei.
...
...
...
E deparei com um texto antigo meu.
Sim, o blog era meu.
Memória destoando.
Auto xingamento.
Só comigo mesmo.
É inteiramente pessoal.

O céu está caindo...

Zona Oeste de São Paulo - 14/01/2008




"Se dizia daquela terra que era sonâmbula. Porque enquanto os homens dormiam, a terra se movia espaços e tempos afora. Quando despertavam, os habitantes olhavam o novo rosto da paisagem e sabiam que, naquela noite, eles tinham sido visitados pela fantasia do sonho."


Mia Couto

Saturday, January 05, 2008

Explicação

Eram dias de sol.

Eu morava na Cidade Maravilhosa, devia ter uns 5 anos. A memória me refresca esses dias, como tantos outros. Estava na pré escola, e minha professora era a tia Luciene. Baixa, morena, dos cabelos negros compridos. Antes de sair de casa, tomava banho, e não podia colocar o uniforme, para não sujá-lo com o frango assado do almoço que aconteceria dali cinco minutos. Após a refeição, eu me vestia e passava um certo perfume verde, de tampa da mesma cor.

Eu não me lembro exatamente quem me levava sempre para a escola. Mas lembro perfeitamente desses dias de sol, que uma senhora me acompanhava até esse lugar onde existia uma caixinha de madeira com furos onde colocavamos o giz de cera.

Uma senhora dos cabelos brancos...tão brancos como a cor da neve. Devia ter seus 80 anos na época, ou quase nessa idade, mas mostrava vitalidade, rapidez em seus atos, no seu andar. Essa senhora, minha bisavó, chamava-se Maria.

Ela com seu vestido florido, levava em um dos bolsos fundos, uma pequena faca.
E quando chegava em uma certa rua do bairro de Olaria - rua esta que tinha casas e mais casas com rosas e mais rosas - pedia silêncio para mim, e delicadamente sem ninguém perceber ela pegava a tal da faquinha e cortava uma rosa do jardim de uma das casas. Era um ato de mestre, cada dia uma residência fornecia uma flor, assim ninguém perceberia a falta. As cores eram diversas, mas eu me lembro constantemente das de cor vermelha, talvez pela intensidade que é aplicada a essa tonalidade.

Ela roubava as rosas dos moradores e eu era seu cúmplice.

No caminho até a escola, ela com a rosa na mão, ia tirando com a mesma faquinha os espinhos, e depois me dava, para em seguida eu presentear a minha professora Luciene. Todos os dias em que minha bisavó Maria me levava para a escola esse ato acontecia.

E eu nunca critiquei este ato de roubo, por achar aquilo uma aventura incomensurável. Cada ida para a escola era suspense e medo de alguém nos apanhar.

Eu roubava rosas com a minha bisavó quando eu era criança.

Eu queria ter mais uma chance de dizer para a Dna Maria que eu me lembro desses dias de sol.


















P.S. - Eu estava lendo um dos contos de "Felicidade Clandestina", intitulado "Cem anos de Perdão" e em momento epifânico entendi Clarice Lispector, afinal eu roubava rosas com a minha bisavó e morava em Olaria, local onde a protagonista de A Hora da Estrela morre, atropelada por um carro.